Um show


Dez anos de paixão diária. Na época em que a internet não dominava, ser fã exigia uma busca real: garimpar sebos no centro da cidade atrás de revistas antigas era o ritual de quem queria se aprofundar no universo dos ídolos.

Visto de fora, parece só empolgação adolescente. Mas é algo único. Nada se compara à energia de um show de rock, estar rodeado por pessoas que vibram na mesma sintonia.

Lá, tudo ganha vida: as frases repetidas em coro, os aplausos sincronizados, o cantar junto com a banda. Até a tentativa da banda de falar português, mesmo que meio atrapalhada, vira motivo de êxtase coletivo.

O roqueiro é mesmo um ser estranho. Celebra a tristeza com sorriso, canta músicas melancólicas com alegria. Gasta fortunas para estar ali e, nos momentos mais intensos, fecha os olhos e se entrega à música.

“Pessoa sem personalidade”, diriam. Todos rejeitam autoridade, mas vestem o mesmo uniforme. A camiseta da banda é um código silencioso de pertencimento. Diferente de um festival, onde a atenção se dispersa, num show solo a conexão é completa. Não importa se é o hit ou o lado B, cada canção é adorada com a mesma devoção.

Vista de fora, a cena parece caótica: uma multidão apertada, disputando o melhor lugar. Para nós, a visão perfeita é a interna. É a imagem que se forma na mente, imersa na música. Inesquecível.


02 de dezembro de 2005. São Paulo. Na plateia, um jovem entre tantos atingia níveis de satisfação incomparáveis, porque ser fã de rock é atividade superlativa. No palco, Pearl Jam.

Cuatro Caminos, Café Tacuba

Uma banda de rock mexicana. À primeira vista, isso pode soar pouco atraente para parte do público. Um grupo que combina referências internacionais com sonoridades regionais. Para alguns, o interesse diminui ainda mais. E há também a dimensão social presente nas letras. Para completar, o grupo recebeu prêmios no Grammy Latino de 2004.

Para quem associa rock a inglês, o disco começa a soar atraente quando se observa quem esteve por trás da produção do disco. Dave Fridmann, que já trabalhou com The Delgados, Flaming Lips, Mogwai e Mercury Rev, e Andrew Weiss, conhecido por colaborações com Ween e Rollins Band.

A discografia do Café Tacuba inclui trabalhos como Reves/YoSoy, um álbum duplo em que uma parte é dedicada à experimentação sonora, e Avalancha de Éxitos, um disco de releituras de músicas tradicionais mexicanas. O grupo transita por vários estilos. Rock, punk e reggae convivem com orquestrações e elementos eletrônicos.

Essa mistura aparece em Cuatro Caminos, seu álbum mais recente. O título sinaliza a diversidade de possibilidades estéticas e também reforça o olhar social do grupo. O nome faz referência a uma estação de metrô que conecta a Cidade do México às áreas periféricas. Há ainda um toque de excentricidade na atitude da banda. Rubén Albarrán, vocalista, assina o disco com o pseudônimo Elfego Buendía, alusão ao romance Cem Anos de Solidão.

Entre as faixas mais fortes, destacam-se Soy o Estoy, Recuerdo Prestado, que remete ao The Clash, e Cambio y Vereda. O ponto alto do disco é a suave Eres.

Lost Dogs, Pearl Jam

A compilação de lados B e raridades do Pearl Jam proporciona uma viagem pela história da banda através de rotas menos conhecidas. Músicas como ‘Yellow Ledbetter’ e ‘Let me Sleep’ já são clássicas, mas é em faixas como ‘Footsteps’ que a gente descobre a versatilidade do Pearl Jam. A letra da canção é simplesmente honesta. 

A comparação com uma confissão divina, comentário sobre a voz de Vedder feito pela Rolling Stone na resenha do disco “No Code”, se encaixa aqui. O trecho ‘I did a what I had to do / If there was a reason, it was you’ resume a jornada de autoconhecimento e arrependimento que poucos artistas conseguem transmitir.

Aliás, “Footsteps” encontra os primeiros passos da formação do Pearl Jam. A história do grupo se inicia com a criação de demos instrumentais por Stone Gossard, Mike McCready e Jeff Ament. Com a intenção de encontrar a voz que complementaria a sonoridade da banda, as demos foram distribuídas.

Foi em San Diego que a fita chegou às mãos de Eddie Vedder. Ao ouvir as músicas, o músico escreveu letras que se encaixavam na parte instrumental. Impressionados com o resultado, Gossard e Ament convidaram Vedder para uma audição em Seattle. Entre as faixas gravadas estavam “Alive” e “Footsteps”.

Lost Dogs, Pearl Jam
Disco 1

1. All Night
2. Sad
3. Down
4. Hitchhiker
5. Don’t Gimme No Lip
6. Alone
7. In the Moonlight
8. Education
9. Black, Red, Yellow
10. U
11. Leavin’ Here
12. Gremmie Out of Control
13. Whale Song
14. Undone
15. Hold On
16. Yellow Ledbetter

Disco 2
1. Fatal
2. Other Side
3. Hard to Imagine
4. Footsteps
5. Wash
6. Dead Man Walking
7. Strangest Tribe
8. Drifting
9. Let Me Sleep
10. Last Kiss
11. Sweet Lew
12. Dirty Frank
13. Brother
14. Bee Girl

Johnny Cash (1932-2003)

E o bardo se foi. O último álbum de Johnny Cash, American IV: The Man Comes Around, destaca-se como um dos trabalhos mais viscerais dos últimos anos. Parte de uma série iniciada por ele com o produtor Rick Rubin, esse projeto traz releituras de clássicos do rock.

No disco, a regravação de Hurt, do Nine Inch Nails, ganha maior força emocional especialmente nos versos “I hurt myself today / To see if I still feel / I focus on the pain”. A voz de Cash transmite uma dor profunda, capaz de tocar até os ouvintes que não a vivenciaram pessoalmente. É a diferença entre cantar e interpretar.

Outro destaque é Personal Jesus, do Depeche Mode, que reafirma o talento de Cash para imprimir emoção genuína, muito além da técnica vocal. One, do U2, também se destaca como uma interpretação sincera.

Johnny Cash faleceu durante a redescoberta de sua obra, com seus álbuns alcançando grandes vendas e o clipe de Hurt recebendo várias indicações no MTV Video Music Awards.

Segundo Rick Rubin, produtor dos últimos discos, ainda há muito material inédito de Cash que poderá ser lançado, garantindo que sua voz continue presente mesmo após sua partida.